terça-feira, junho 23, 2015

Corrida contra o tempo salvou barcos rabelos

Publicado às 00.22

MÁRIO BARROS
 
 
foto LISA SOARES/GLOBAL IMAGENS
Corrida contra o tempo salvou barcos rabelos
 
Os barcos rabelos foram concebidos para uma função muito específica: transportar os barris de Vinho do Porto desde o Alto Douro até às caves situadas em Vila Nova de Gaia. Regata vital para a manutenção deste património duriense.

O ano de criação das embarcações não está exatamente definido nos compêndios de história, sabendo-se que foi no ano de 1792 que a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro fez publicar os alvarás que concederam identidade própria a estes barcos, parte integrante da criação do Marquês de Pombal. Entre as décadas de 1960 e 1970, vergados ao peso da corrida desigual com os caminhos de ferro, os barcos rabelos estavam próximos da extinção física e já pouco restava destas relíquias. Por esses dias, os desolados estaleiros na ribeira de Gaia davam bem a ideia do trabalho que havia para fazer em termos de recuperação deste património.
Como refere Isabel Marrana, diretora da Associação das Empresas de Vinho do Porto, "os barcos rabelos estavam a desaparecer e foi lançada a ideia de fazer uma regata com todos os barcos rabelos então disponíveis, que eram só quatro. Houve o propósito de fazer uma celebração daquele que é um dos símbolos do Vinho do Porto e isso teve desde logo muito êxito. Nos primeiros dez anos de regata (que decorre amanhã) verificámos que a maioria das casas construiu barcos rabelo".
Como recorda António Vasconcelos, membro da Comissão Técnica das Regatas dos Barcos Rabelo, "nas primeiras regatas os barcos eram um bocado velhos e só havia da Ferreira e da Cálem". A Cockburn construiu o primeiro barco rabelo dos tempos modernos e essa foi "uma forma de preservar a vida dos barcos rabelos", acrescenta. Vida essa que chegou a estar em perigo anos depois: "numa das noites de S. João, um dos balões caiu no telhado da casa da Cockburn e provocou um incêndio que durou até às seis da manhã. A casa acabou por não participar na corrida..." A noite é de muitos perigos e hoje em dia as cautelas são redobradas, para prevenir sobressaltos. São as casas produtoras de Vinho do Porto quem arca com as despesas de conservação do património. Os 12 mil a 15 mil euros anuais que custa a manutenção dos barcos rabelos não são "chorados" mas, afiança Isabel Marrana, "nunca houve um cêntimo de incentivo para um evento que também é património cultural".

http://www.jn.pt/Dossies/dossie.aspx?content_id=4639310&dossier=Regata%20Barcos%20Rabelo

+

Como se recupera um barco rabelo


Pinheiro, carvalho e ferro galvanizado. São os três materiais nobres que compõem um barco rabelo digno do nome.
Contam os especialistas na arte de construir ou recuperar uma embarcação como esta, que entre cinco a seis homens bastam para compor uma equipa para os trabalhos que podem durar entre três a quatro meses. De fundo chato, os rabelo têm como bitola o tamanho dos barris a transportar e navegam à semelhança de como faziam os barcos do Mediterrâneo e alguns de origem nórdica: de velas quadradas. Da complexidade do ato da construção, há um instrumento central a todo o processo: a enxó, utilizada para desbastar e trabalhar a madeira. É notável como um utensílio tão simples pode ser tão eficaz. O resto, bom, o resto é trabalho e muita sapiência, transmitida por gerações de homens bravos, com arte nas mãos.

http://www.jn.pt/Dossies/dossie.aspx?content_id=4639309&dossier=Regata%20Barcos%20Rabelo

Sem comentários: