quinta-feira, abril 23, 2015

Brincar com o nosso outro eu

É sempre muito mais fácil lidar com o nosso outro eu. Afinal de contas, não somos nós. O nosso outro eu é assim como que um depósito lacrado da nossa má consciência. Atira-se para lá a culpa própria e já está! Nem é preciso juntar água. O espelho pouco nos diz. Bem vistas as coisas, se nos virarmos de lado quase passamos despercebidos e se lhe virarmos as costas ele cai no esquecimento. É sempre muito mais fácil brincar com o nosso outro eu.

segunda-feira, abril 20, 2015

E o povo não saiu à rua...

São já cerca de 1.500 os refugiados saídos de África, rumo à Europa, que morreram no Mar Mediterrâneo desde o início deste ano. Adjectivos não faltam, seguramente, para descrever o drama das longas viagens sem retorno que fazem milhares e milhares de refugiados políticos, refugiados de guerra, refugiados da fome e de outras perseguições, com o desespero e a esperança em cada um dos pratos da balança da própria vida.
Já muitos falaram e escreveram acerca da necessidade de a União Europeia tomar uma atitude conjunta e firme para travar ou, pelo menos, minimizar estas avalanches humanas, "condenadas" que estão a ficar nas mãos de traficantes sem escrúpulos e, sobretudo, na gaveta de baixo das prioridades dos governantes europeus (e não só). Eles, os emigrantes, constituem a base da pirâmide, não causam mossa de terrorismo nas nossas ruas, morrem entre eles... enfim, estão habituados à miséria e pouco mais acabam por ser do que meras estatísticas e votos de pesar nos livros de História. Isto pensarão alguns de nós, que ficamos mais chocados com um piloto tresloucado que matou 149 pessoas nas montanhas francesas, ou com um atentado ao jornal satírico "Charlie Hebdo". As tragédias, as loucuras humanas, não se medem pela quantidade de mortos, está visto, pois há umas que chocam mais do que outras. Pensamento errado e perigoso. A União Europeia tarda em colocar na mesa uma política comum e, mais do que isso, agir de forma colectiva e não olhando para o próprio umbigo.
Uma das provas disso mesmo é o facto de que, pelo menos até à hora em que escrevo este texto, não ter conhecimento de manifestações de rua a clamar por ajuda às vítimas do tráfico de seres humanos, bem como por acções firmes contra estes carrascos, que matam homens, mulheres e crianças sem qualquer escrúpulo.
Aguardemos para ficar a saber o que decidem os líderes europeus, na cimeira extraordinária de depois de amanhã. Se é certo que não existem curas milagrosas para uma tragédia com tais dimensões, seguro é que a União Europeia (e o Mundo) pouco têm feito para combater o tráfico de vidas nesta região do Mundo.


Foto: http://blogs.ft.com/the-world/2015/04/europes-mediterranean-crisis/

terça-feira, abril 14, 2015

Benfica vs. FC Porto no marketing

Não é apenas dentro das quatro linhas e nos 90 minutos regulamentares que a rivalidade entre Benfica e FC Porto existe. Com um mercado potencialmente mais vasto do que os adversários da Invicta, o Benfica leva a relação que tem com os seus adeptos de uma forma muito particular. Se não, vejamos: desde que me lembro de ver futebol, uma das imagens que ficou na minha memória foi a dos jogadores do Benfica saudarem os seus adeptos com uma vénia antes do jogo, pelo menos, nos jogos em casa. Uma fotografia muito rara nos jogadores do FC Porto, nas Antas e fora. [Declaração de interesses: sou portista e fui sócio durante vários anos, até que a minha profissão de jornalista ditou outro caminho.] Ou seja, o sentimento de respeito e de admiração pelos adeptos começava ainda antes de o árbitro apitar pela primeira vez. Outro exemplo: glosando com a ideia de “ser levado ao colo”, os responsáveis do clube da Luz promoveram uma campanha curiosa, na qual um adepto do clube segura uma criança nos braços e é feita a associação ao "colinho" dos árbitros, que vários adversários acusam de beneficiarem os benfiquistas, com a promoção para bilhetes especiais para famílias.

Quero com isto dizer que os protagonistas de um espectáculo de futebol (no caso) ao muito além dos 22 jogadores que entram de início. Os adeptos são, no fundo, a razão de existir daquelas camisolas, do corrupio mediático que envolve os jogos e… do dinheiro que depois acaba por cair nos cofres dos clubes, quer através das receitas de bilheteira e das transmissões televisivas, quer através das verbas resultantes das transferências e das operações de marketing. Ainda há poucos minutos, enquanto grande parte da equipa do Real Madrid recolhia aos balneários, depois do empate a zero na casa do Atlético de Madrid, o mítico Iker Casillas chamava os seus companheiros para que estes agradecessem aos adeptos “merengues” o apoio dado na casa do rival.

Transpondo este exemplo desportivo para o meio empresarial, dos negócios, é com particular irritação que vejo alguns funcionários por detrás de um balcão receberem-me com um “diga!”, ou um “sim!”. Tenho vontade de dar meia volta, como já o fiz. O rosto de uma empresa, seja qual for a dimensão, tem de ser o primeiro Relações Públicas, o primeiro foco de sedução. Só assim, e mesmo que o visitante não gaste um cêntimo, não consuma qualquer produto, está sempre mais perto de voltar, do que riscar aquele sítio do seu mapa.

Claro que não basta ter uma cara laroca e um sorriso rasgado. O marketing é muito mais do que isso. É preciso ter uma estratégia bem definida, pessoas devidamente qualificadas/preparadas para fazerem parte de uma máquina mais vasta, saber aquilo que os clientes procuram e não oferecer-lhes aquilo que julgamos ser o ideal, possuir uma imagem corporativa, estar sempre pronto a ultrapassar, em equipa, os obstáculos conjunturais e corrigir as eventuais deficiências estruturais.


Parece simples, não é? Parece o bê-á-bá dos negócios de sucesso, não é? E que tal praticar?

segunda-feira, abril 13, 2015

Eu não sou candidato a Belém!

Primeiro, porque não posso: faltei às eleições europeias de 1994, porque estava no meio do rio Douro, ao serviço do jornal para o qual então trabalhava. Segundo, porque, mesmo que pudesse, não queria

Texto de Mário Barros • 13/04/2015 - 13:21

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Sim é verdade: não sou candidato ao cargo de Presidente da República. Primeiro, porque não posso: faltei às eleições europeias de 1994, porque estava no meio do rio Douro, ao serviço do jornal para o qual então trabalhava. Segundo, porque, mesmo que pudesse, não queria. Não me dá jeito nessa altura.

Porém, e ainda a sete meses das eleições legislativas, ou seja, com muita tinta e votos para correr e contar, não falta quem se coloque em bicos de pé para ver se apanha desprevenida a inefável e inevitável “vaga de fundo”. Por agora, e de acordo com os números mais recentes, há três candidatos anunciados: Henrique Neto, Paulo Morais e Paulo Freitas do Amaral (a este último faltam-lhe metade das assinaturas). Seguem-se as possibilidades Sampaio da Nóvoa, Marinho e Pinto, Carvalho da Silva, António Vitorino, Marcelo Rebelo de Sousa e Santana Lopes. Para já. Porque ainda faltam muitos meses (Março 2016) para que Cavaco Silva dê a vez ao senhor que se segue. Logo, mais nomes surgirão.

De todos estes personagens políticos, gostaria de destacar dois, pelos respectivos percursos, embora distintos, ao longo das últimas décadas: António Vitorino e Santana Lopes. O socialista evitou várias derivas mais esquerdistas enquanto jovem delfim da Frente Republicana e Socialista e, já no PS, putativo candidato a primeiro-ministro, andou pela Comissão Europeia (1999), regressou à pátria, onde desempenha cargos de responsabilidade em cerca de uma dúzia de empresas, ganhou espaço mediático e foi deixando umas “Notas Soltas”. Mas, por causa de um alegado incumprimento no pagamento de impostos pela compra de uma casa em ruínas, em 1997, demitiu-se do cargo de vice-primeiro-ministro e não mais voltou à ribalta da política nacional. Hoje, em 2015, continua a não querer comprometer-se e prefere pairar no conforto da sua nuvem de D. Sebastião.

Já Santana Lopes tem muito que contar aos netos, mas aqui fica um breve resumo. Na política activa praticamente desde 1976, foi adjunto de Sá Carneiro, deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, secretário de Estado da Cultura, presidente do Sporting (pode não parecer, mas acaba por ser um cargo político, se olhado à realidade de então), liderou a Câmara da Figueira da Foz e, mais tarde, acabou sentado na cadeira de primeiro-ministro, devido à abalada de Durão Barroso para Bruxelas. Esteve cerca de seis meses em S. Bento.

À laia de conclusão: desejo que António Vitorino continue com o avental da Maçonaria ao redor da cintura, na gestão de não-sei-quantas empresas, e que Santana Lopes não tire a fita vermelha da cabeça, se mantenha à frente da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e que ambos continuem como comentadores nas televisões. Por muitos e bons anos.