segunda-feira, junho 29, 2015

Lição 1: arranjar o nó da gravata antes de sair de casa

A campanha eleitoral para as legislativas já começou, pese ainda quem ache que o país vai a banhos e, portanto, o que se fizer agora não tem grande importância política mais lá para a frente. Refiro-me a dois casos que vi nas televisões e me deixaram a pensar se, de facto, os cuidados com a Comunicação também entraram em período de austeridade. Retiro daqui explicitamente os ecos que esses dois momentos tiveram nas redes sociais, hoje em dia promovidas indignamente ao patamar de fazedoras de opinião. Mas isso dará pano para outras mangas.

O primeiro desses momentos aconteceu quando Pedro Passos Coelho teve a ideia de se fazer entrar numa escultura feita em metal por Joana Vasconcelos (“Casa de Chá”) para o Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, por ocasião da comemoração dos 75 anos daquele espaço. Logo esta originalidade foi aproveitada pelos seus críticos, uns com comentários sarcásticos, outros com tiradas menos felizes. Mas, mesmo em situações descontraídas, como era este o caso, os actores públicos não podem dar o flanco. E Pedro Passos Coelho fê-lo, colocando-se atrás de grades. Para evitar momentos destes é que os especialistas em Comunicação devem manter a guarda alerta. Mesmo a espontaneidade deve ser trabalhada. O filme “O Candidato”, protagonizado por Robert Redford, é um belíssimo exemplo (e estamos a falar da América dos anos 1970) de como as equipas por detrás dos políticos, ou candidatos a, podem e devem influenciar o que eles fazem.

O segundo caso terá passado mais ou menos despercebido, mas nem por isso deixa de merecer reflexão. Aconteceu quando António Costa, líder do PS e candidato a primeiro-ministro, se deslocou ao Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, para saber “in loco” do estado de saúde de Maria Barroso. Os primeiros comentários de António Costa emitidos pelas televisões foram, naturalmente, sobre a condição da primeira-dama e mostraram um político à porta do hospital, proferindo as palavras da praxe. Mais à frente, no alinhamento dos telejornais, surge o mesmo António Costa, exactamente no mesmo local, a opinar sobre a situação da Grécia.

Ora, por mais que fosse pressionado pelos jornalistas para responder às “mil” perguntas sobre o estado de saúde Maria Barroso e a situação na Grécia quase em simultâneo, o líder socialista deveria ter sido resguardado. Assim, ficou no ar (eu fiquei com) a ideia de que António Costa fala sobre tudo e em qualquer sítio, desde que lhe coloquem uma câmara e um microfone à frente.

Em suma: não basta estar nos sítios e acreditar que se tiram vantagens de ser filmado para as televisões. Os mais desligados destas coisas da Comunicação podem argumentar que o cidadão comum não está interessado nestas minudências, quer é saber o que é que “eles” vão fazer se forem eleitos. Mas a eficácia da mensagem “deles” também passa por estes pequenos/grandes detalhes. Podem ser tão importantes como arranjar o nó da gravata antes de sair de casa.

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